segunda-feira, 13 de setembro de 2010

ALI TH ERAÇÕES XXII



A porta da verdade estava aberta,
Mas só deixava passar
Meia pessoa de cada vez.
Assim não era possível atingir toda a verdade,
Porque a meia pessoa que entrava
Só trazia o perfil de meia verdade,
E a sua segunda metade
Voltava igualmente com meios perfis
E os meios perfis não coincidiam verdade…
Arrebentaram a porta.
Derrubaram a porta,
Chegaram ao lugar luminoso
Onde a verdade esplendia seus fogos.
Era dividida em metades
Diferentes uma da outra.
Chegou-se a discutir qual
a metade mais bela.
Nenhuma das duas era totalmente bela
E carecia optar.
Cada um optou conforme
Seu capricho,
sua ilusão,
sua miopia.


Carlos Drummond de Andrade


TH - Pescado certeiramente do blog "Enfim, é o que tem para hoje" :)

4 comentários:

Serginho Tavares disse...

Drummond é tão bom que nunca precisou da ABL

Beijos querido

Paulo Braccini disse...

um dos escritos mais fortes e verdadeiros de Drummond ...

bjux

;-)

Coyot disse...

Drummond? Mesmo? será que ele não sabia que a verdade era aquosa?

Wagner disse...

Muito legal! De verdade...Me lembrou demais O Banquete de Platão! Sobretudo a parte do Belo! Abraços!